Ritmo mensal salta de queda de 57,4% para alta de 659% em dezembro; parte do salto é repique de base baixa somado a sazonalidade de fim de ano.
As exportações brasileiras de farelo e torta de soja para a Alemanha viraram a chave em dezembro. O ritmo mês a mês passou de -57,4% em novembro para +659% no fechamento de 2025 — uma virada de 716,8 pontos percentuais que reacende um corredor que parecia perder fôlego. Para quem acompanha o comércio bilateral de proteína animal, o movimento chama atenção justamente por acontecer no mês que fecha o balanço do ano.
Novembro fechou no vermelho: o ritmo mensal recuou quase 60%, sinal de que compradores alemães seguravam pedido ou remanejavam origem. Um mês depois, a curva se inclinou com força total. É típico do fim de ano no setor de farelo: fábricas de ração na Europa fecham estoque e reabastecem de uma vez, empurrando volume para dezembro. Esse mesmo mês coincide com o escoamento pleno da safra brasileira pelos portos do Sul, o que reforça o efeito de calendário sobre o número isolado.
Isso não invalida o número. Mas pede cautela: uma inflexão de 716,8 pontos percentuais contra uma base que estava negativa é, em parte, matemática de recuperação. Sair de queda para alta sempre produz variação inflada, simplesmente porque o denominador de comparação é pequeno. O que vale observar é se o novo patamar se sustenta nos primeiros meses de 2026, e não apenas o tamanho do salto isolado de dezembro.
A Alemanha processa boa parte da soja que compra em farelo para alimentação animal, e o esmagamento interno alemão compete direto com a oferta pronta que sai de Rio Grande, Paranaguá e Santos. Quando o custo de esmagar em solo europeu sobe — energia mais cara é o fator recorrente desde a crise do gás — importar torta já processada do Brasil vira alternativa mais barata. A entressafra argentina, historicamente concorrente direto no farelo de soja, também deixa espaço livre nesse trimestre. Fábricas de ração alemãs costumam diversificar fornecedor justamente nessa janela, o que ajuda a explicar a velocidade da retomada.
Outro fator plausível é cambial: o real mais depreciado frente ao euro no fechamento de 2025 tornou a torta brasileira mais competitiva em euro, sem que o exportador brasileiro precisasse ceder margem em dólar. Como mostramos ao acompanhar o cobre chileno em alta, reversões de ritmo mensal costumam coincidir com essas janelas de custo relativo. O mesmo raciocínio parece se aplicar aqui, ainda que sem confirmação nos microdados de frete.
Sem dado de previsão do motor da Kyrodata para este corredor, o que dá para dizer é o que merece acompanhamento. Se o ritmo de janeiro e fevereiro de 2026 mantém dois dígitos positivos, o salto de dezembro deixa de ser repique e vira mudança de patamar. Se recuar para perto de zero, foi só o efeito de fim de ano batendo em cima de uma base fraca — e o corredor volta ao tamanho que tinha antes do repique.
Fonte: MDIC ComexStat.
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