A dependência energética de Itaipu é estrutural, mas o índice HHI de 0.978 revela uma vulnerabilidade quase total a um único fornecedor.
O Brasil opera com uma única fonte para sua importação de energia elétrica. Em 2025, 98,9% de toda a eletricidade comprada do exterior veio de um único parceiro: o Paraguai. A transação, que somou US$ 910,7 milhões, expõe uma concentração máxima em um insumo crítico para a indústria e o consumidor. Com um índice Herfindahl-Hirschman (HHI) de 0.978 — onde 1.0 representa um monopólio puro —, a relação comercial é menos uma escolha de mercado e mais uma realidade geopolítica e de infraestrutura.
Essa dependência não é acidental; é o resultado direto do Tratado de Itaipu, assinado em 1973. A usina hidrelétrica binacional é uma das maiores do mundo, e o acordo estipula que a energia não utilizada pelo Paraguai deve ser vendida ao Brasil. Por décadas, essa foi uma solução eficiente e de custo competitivo para complementar a matriz energética brasileira. O Paraguai consumia uma fração de sua cota de 50%, e o Brasil absorvia o excedente, garantindo estabilidade para ambos os lados da fronteira.
A concentração, embora racional do ponto de vista histórico e de engenharia, cria um ponto único de falha. A estabilidade do fornecimento paraguaio depende de três fatores principais: hidrologia, política e demanda interna paraguaia. Uma crise hídrica severa, como a que afetou a bacia do Paraná nos últimos anos, pode reduzir drasticamente a capacidade de geração de Itaipu, forçando o Brasil a acionar usinas termelétricas, que são mais caras e poluentes.
O cenário político também é uma variável. A renegociação do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras da operação, já introduziu novas dinâmicas na relação. Além disso, o Paraguai tem um plano de desenvolvimento que prevê o aumento do consumo interno de energia. Se o país vizinho passar a utilizar uma fatia maior de sua cota de geração, a oferta disponível para o Brasil diminuirá estruturalmente, independentemente das condições climáticas.
O que acontece se o fluxo de Itaipu for interrompido ou drasticamente reduzido? A resposta imediata do sistema elétrico brasileiro seria despachar outras usinas da matriz para compensar. O Operador Nacional do Sistema (ONS) recorreria a hidrelétricas em outras bacias, usinas térmicas a gás, carvão ou óleo, e à crescente geração eólica e solar. O problema é o custo. A energia de Itaipu é uma das mais baratas do sistema, e sua substituição por fontes térmicas elevaria as tarifas para todos os consumidores.
Os outros dois parceiros que exportaram energia para o Brasil em 2025, Argentina e Uruguai, representam um volume residual. Juntos, eles não chegam a 2% do que o Paraguai fornece. Embora existam interconexões, a capacidade de transmissão é limitada e a disponibilidade de excedente nesses países não é suficiente para cobrir uma falha no fornecedor principal. A construção de novas linhas de transmissão ou de grandes usinas geradoras é um processo que leva anos e envolve investimentos bilionários, não sendo uma solução para uma crise de curto prazo.
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